Pesquisa da VR revela que 39% dos empreendedores vivem com até dois salários mínimos e mais de 70% das famílias não recebem benefício social
O empreendedorismo nas favelas brasileiras tem rosto, gênero e cor. Pesquisa encomendada pela VR ao Instituto Data Favela revela que as mulheres negras estão na linha de frente da geração de renda e autonomia econômica nas periferias. O levantamento entrevistou presencialmente mais de 2 mil pessoas em comunidades de todo o país e identificou que 55% dos empreendedores são mulheres e 75% dos entrevistados se declaram negros.
Concentradas majoritariamente na faixa etária entre 35 e 59 anos (48%), essas mulheres são predominantemente solteiras (47%) e 38% têm apenas o ensino médio completo. Adicionalmente, enfrentam a já conhecida dupla jornada: cerca de 68% dedicam mais de três horas diárias aos cuidados domésticos e com os filhos, conciliando essa rotina exigente com a gestão dos próprios negócios.
Capital é o maior desafio
Ao analisar o perfil socioeconômico dos lares desses empreendedores, a pesquisa indica um cenário marcado por recursos limitados, uma vez que 39% vivem com renda mensal de até dois salários-mínimos enquanto 24% sobrevivem com apenas um salário-mínimo. O levantamento também mostra que mais de 70% dessas famílias não recebem qualquer tipo de benefício social, o que reforça o papel do empreendedorismo como uma das principais fontes de sustento de muitas famílias dentro da favela.
Boa parte dos negócios nasce com recursos bastante enxutos: seis em cada dez empreendedores afirmaram que até dois salários-mínimos foram suficientes para tirar a ideia do papel, desses, 37% começaram com até R$ 1.500, enquanto 23% investiram um pouco mais de R$ 3.000. Na maioria das vezes, o valor inicial para investir saiu do próprio bolso ou contou com o apoio de familiares, alternativa mencionada por 57% dos entrevistados. Por outro lado, 14% declararam ter utilizado rendas extras ou valores recebidos em indenizações trabalhistas, enquanto 25% recorreram a crédito, seja por meio de bancos, empréstimos com amigos ou outras formas informais de financiamento, como agiotas.
Faturamento e custos operacionais
Quanto ao faturamento médio desses negócios, metade dos empreendedores informaram conseguir arrecadar até dois salários-mínimos mensais com seus empreendimentos. Outros 15% alcançam até três salários-mínimos, enquanto 12% chegam a cinco salários.
Para manter os empreendimentos, o estudo aponta que, muitas vezes, os gastos operacionais são praticamente equivalentes ao que essas pessoas faturam mensalmente, deixando margem mínima para reinvestimento, expansão ou formação de reservas financeira: 43% dos entrevistados gastam até R$ 1.520 mensais para manter seus negócios funcionando, enquanto 24% desembolsam em torno de R$ 3.040.
Já em relação aos meios de pagamento utilizados nas transações comerciais dentro das favelas, o Pix está presente em 91% das vendas dos empreendedores, demonstrando a rápida adoção de tecnologias de digitalização e de pagamento instantâneo, mesmo em comunidades com menor acesso a serviços bancários tradicionais. Na contramão da tecnologia, a utilização do dinheiro em espécie segue forte, sendo a forma mais utilizada em 85% dos pagamentos.
Pandemia como catalisador do empreendedorismo
Um dos achados da pesquisa está relacionado ao tempo de abertura dos negócios, 6 em cada 10 respondentes afirmaram ter aberto seus empreendimentos a partir de fevereiro de 2020, período que marca o início da pandemia no Brasil. Desses, 12% iniciaram suas atividades no auge da crise sanitária, enquanto 44% abriram suas portas no período de estabilização do quadro de saúde pública. O dado revela um volume considerável de empreendimentos que surgiram durante a pandemia e na fase de retomada, em um contexto de forte instabilidade econômica e retração do mercado de trabalho formal.
