Na Arena RH Tech do CONARH 52, o neurocientista Eduardo Soley, sócio da Cuboo Experience, apresentou a exposição “Neurociência, comportamento e IA: como o cérebro processa essa revolução”. O recado central não foi contra o uso da tecnologia. Foi um convite à atenção: usar IA sem pensar em como usar tem um custo, e esse custo tende a aparecer primeiro nas equipes, antes de virar número em qualquer relatório.
Um estudo pequeno, tratado como alerta, não como prova
O palestrante citou uma pesquisa do MIT, apresentada como “Your Brain on ChatGPT”, que dividiu 54 pessoas em três grupos, um escrevendo só com repertório próprio, outro com buscador tradicional e um terceiro com IA generativa, e mediu atividade cerebral durante a tarefa.
Vale o contexto antes do dado: com 54 participantes, esse tipo de estudo é exploratório, não uma conclusão fechada sobre o efeito da IA no cérebro. Dito isso, o padrão observado chamou atenção da plateia: o grupo que trabalhou só com a própria cabeça registrou mais atividade numa faixa de onda cerebral ligada à memória de trabalho do que os outros dois grupos, e teve mais facilidade para reproduzir de memória o que havia escrito minutos depois.
Isso não permite concluir que o uso de IA “danifica” a cognição. Permite levantar uma pergunta que interessa ao RH: se uma tarefa é sempre entregue pronta pela IA, em algum momento a pessoa deixa de exercitar a parte do raciocínio que a tarefa exigia?
Um exercício em sala, não um experimento controlado
Para ilustrar o ponto, o palestrante dividiu a plateia em dois grupos com a mesma tarefa hipotética, decidir o que fazer diante de um caso fictício de decisão automatizada sobre demissões. Um grupo resolveu sem apoio nenhum, o outro usou IA generativa livremente.
O grupo com IA terminou primeiro e entregou uma resposta bem estruturada. O grupo sem apoio levou mais tempo, mas cada participante sabia explicar e defender a própria escolha. Vale registrar que isso foi uma demonstração ao vivo, sem controle experimental, e serve para ilustrar o argumento, não para comprovar cientificamente um efeito.
Nem toda terceirização de esforço é o problema
O ponto mais útil da sessão, para quem pensa em política de uso de IA, foi essa distinção. Existe esforço mental que vale a pena entregar para uma ferramenta, como fazer uma conta complexa de cabeça em vez de usar calculadora. E existe o esforço que a teoria da carga cognitiva chama de germane, o trabalho mental que constrói repertório e capacidade de resolver o próximo problema sozinho.
A recomendação prática que fica daí não é evitar IA. É que times e lideranças prestem atenção em quais tarefas estão sendo delegadas: as repetitivas, que ninguém sentirá falta de exercitar, ou as que ensinam a pessoa a pensar sobre o próprio trabalho.
Quatro práticas para equipes que usam IA no dia a dia
O palestrante propôs um modelo próprio, inspirado nos pilares de cultura usados pela Ben & Jerry’s e adaptado ao contexto de IA. Funciona mais como hábito de equipe do que como regra de sistema, e pode orientar uma política de uso consciente:
- Não aceitar a primeira resposta pronta da IA sem questionar e refinar o pedido.
- Manter espaço para perguntar por que uma tarefa é feita de determinado jeito, mesmo quando a resposta é “sempre foi assim”.
- Dividir decisões em partes menores, deixando claro em qual etapa a pessoa continua decidindo, mesmo com apoio de IA nas etapas anteriores.
- Cuidar da comunicação sobre esse processo. Comunicação fria e sem contexto tende a engajar menos o time do que uma explicação com propósito por trás.
Habilidades humanas continuam sendo diferencial
Se parte do conteúdo técnico pode ser produzida por IA, a sessão defendeu que a diferenciação passa a estar em capacidades como inteligência emocional, escuta, julgamento e adaptabilidade. Nenhuma dessas depende de banir a tecnologia. Depende de continuar investindo no desenvolvimento delas com a mesma prioridade dada ao treinamento técnico.
Para o RH, o recado prático da sessão é menos sobre medir o efeito da IA no cérebro e mais sobre decidir, com intenção, o que a equipe delega e o que a equipe continua exercitando por conta própria.
Essa foi mais uma palestra do primeiro dia do CONARH 2026. A cobertura completa do evento continua no blog da VR.
