O Summit Mulheres nas Profissões 2026 está reunindo, nos dias 4 e 5 de agosto, no Expo Center Norte, em São Paulo, mais de 200 painelistas em seis arenas simultâneas de conteúdo sobre liderança, carreira, tecnologia e o futuro do trabalho. A VR está presente com stand próprio durante os dois dias, acompanhando de perto algumas das discussões mais relevantes do primeiro dia de evento.
Uma delas aconteceu no painel “Letramento em IA: a competência que toda profissional precisará desenvolver”, em que Ana Cabral (empreendedora e arquiteta de software) e Kate Zunino (Diretora Global de Tecnologia, Inovação e Pessoas da Craft) trouxeram uma distinção que incomoda: usar uma ferramenta de inteligência artificial não é a mesma coisa que entender o que ela faz. E essa diferença já está separando carreiras.
A conversa foi menos sobre ferramentas e mais sobre o que acontece quando a IA entra na rotina de trabalho sem que ninguém tenha sido preparado para ela. Porque ela entra de qualquer jeito. Confira os principais insights!
O que é letramento em IA?
Letramento em IA é a capacidade de entender como a inteligência artificial funciona, usá-la com pensamento crítico e aplicá-la a problemas reais do trabalho. O paralelo mais direto é o letramento digital das últimas décadas: em algum momento, saber usar planilha, e-mail e sistemas deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica.
Na prática, a competência envolve quatro movimentos:
- formular pedidos claros, com contexto e objetivo definidos;
- avaliar a resposta antes de usá-la, checando o que pode estar errado;
- reconhecer os limites da tecnologia e as situações em que ela não deve decidir;
- encaixar a ferramenta em um fluxo de trabalho que já existe, em vez de criar um processo paralelo.
Nenhum desses pontos exige conhecimento técnico de programação. Exige repertório e critério.
A IA não substitui pessoas, ela redistribui o tempo
Ana Cabral trouxe a experiência de quem vive o assunto por dentro: entregas que antes se arrastavam por meses passaram a ser concluídas em semanas com apoio da IA, especialmente em desenvolvimento de software, documentação e organização de informação.
O efeito não fica restrito à área de tecnologia. Marketing, Finanças, Jurídico, Atendimento e Recursos Humanos já convivem com algum uso de IA no dia a dia, muitas vezes sem processo formal por trás.
O resultado, quando o uso é consciente, é menos tempo em tarefa repetitiva e mais tempo em análise, construção de relação e decisão. O que muda não é o volume de trabalho: é a natureza dele.
A adoção que funciona começa pela cultura, não pela ferramenta
Comprar licença de uma ferramenta de IA é a parte fácil. Kate Zunino contou um caminho diferente adotado na Craft: em vez de apenas liberar o acesso e pedir que as pessoas experimentassem, a empresa estruturou uma jornada de aprendizagem para que as próprias equipes identificassem gargalos nas suas áreas e desenhassem as soluções.
O desdobramento foi um conjunto de iniciativas internas criadas pelas áreas de negócio, com ganho de produtividade de aproximadamente 4 mil horas por mês
A leitura que interessa aqui é a lógica, não o número: quando as pessoas entendem a tecnologia, elas encontram usos que nenhuma área central teria mapeado sozinha. Programa de adoção de IA sem capacitação vira ferramenta subutilizada com contrato pago.
O que isso significa para o RH
O RH está em uma posição incomum nessa discussão. É a área que precisa desenvolver a competência internamente e, ao mesmo tempo, é a área responsável por desenvolvê-la no restante da empresa.
No próprio trabalho de RH, os usos mais maduros de IA generativa aparecem em atividades como:
- redação e revisão de descrições de vagas;
- triagem e organização de grandes volumes de currículos;
- criação de conteúdo de treinamento por função ou senioridade;
- resposta a dúvidas recorrentes sobre benefícios e políticas internas;
- leitura de comentários abertos de pesquisas de clima em busca de padrões.
Nenhuma dessas aplicações substitui julgamento sobre pessoas. Todas liberam tempo de quem hoje gasta boa parte da semana em tarefa operacional.
Do lado da capacitação, a pergunta que o RH vai receber das lideranças é bem concreta: quem na empresa precisa aprender o quê, em qual ordem, e como isso será medido. Chegar a essa conversa sem repertório próprio é desconfortável.
Usar IA sem diretriz também é um risco
Outro ponto reforçado no painel foi o da governança. Em muitas organizações, o uso de IA começou de forma espontânea, com pessoas colando informação de trabalho em ferramentas abertas sem nenhuma orientação sobre o que pode ou não ser compartilhado.
O risco é direto: dado confidencial de empresa, informação de pessoa colaboradora e conteúdo sensível de processo interno circulando em plataformas de terceiros.
A resposta que aparece nas empresas mais organizadas combina três frentes:
- política de uso clara, dizendo o que pode ser inserido nas ferramentas e o que não pode;
- capacitação, para que a regra faça sentido e não seja lida como burocracia;
- ambiente controlado, com ferramentas corporativas em vez de contas pessoais.
A supervisão humana continua sendo a parte não negociável. Modelos de IA generativa produzem respostas imprecisas com aparência de segurança, e isso pesa especialmente em comunicação com candidatos, cálculo de benefícios e qualquer decisão que afete a vida de alguém.
Por onde começar a desenvolver letramento em IA
Não é preciso um projeto grande para dar o primeiro passo. Um caminho possível:
- Escolha duas tarefas repetitivas da sua semana. Descrição de vaga, resumo de reunião e formatação de relatório são bons candidatos.
- Use uma ferramenta só, por 30 dias. Consistência ensina mais do que variedade.
- Aprenda a estruturar o pedido. Contexto, objetivo, formato e público mudam completamente a qualidade da resposta.
- Defina o que precisa de revisão humana antes de sair. Comunicação externa e qualquer coisa que envolva dado de pessoa entram nessa lista.
- Acompanhe o resultado. Tempo economizado e erros identificados já são indicadores suficientes para orientar o próximo passo.
- Compartilhe o que funcionou com o time. Letramento coletivo cresce mais rápido do que letramento individual.
Perguntas frequentes sobre letramento em IA
Letramento em IA é a mesma coisa que saber usar ChatGPT? Não. Saber operar uma ferramenta é o ponto de partida. Letramento em IA inclui entender como o sistema chega à resposta, reconhecer quando ela pode estar errada e decidir onde a tecnologia entra e onde não entra.
Preciso saber programar para desenvolver essa competência? Não. As ferramentas de IA generativa funcionam a partir de instruções em linguagem natural. O que faz diferença é a clareza do pedido e a capacidade de avaliar criticamente o que volta.
Quem no RH deveria desenvolver letramento em IA primeiro? Faz sentido começar por quem lida com maior volume operacional, como recrutamento e atendimento a pessoas colaboradoras, e por quem estrutura políticas internas. São os grupos com ganho mais rápido e com maior exposição a risco de uso inadequado.
Como saber se o uso de IA na empresa está seguro? Verifique se existe política de uso publicada, se as pessoas sabem quais informações não podem ser inseridas nas ferramentas e se há alguma alternativa corporativa disponível. Ausência dessas três coisas normalmente significa uso informal acontecendo sem visibilidade. Para questões que envolvam proteção de dados pessoais, vale consultar as áreas jurídica e de segurança da informação.
Qual o risco de deixar essa competência para depois? O uso de IA já está acontecendo nas empresas, com ou sem diretriz. Adiar a capacitação não evita o uso, apenas transfere para as pessoas a responsabilidade de descobrir sozinhas o que fazer com a ferramenta.
O aprendizado é a competência, não a ferramenta
A tecnologia vai continuar mudando de nome, de interface e de capacidade. Aprender uma ferramenta específica tem prazo de validade curto.
O que sustenta o profissional nesse cenário é outra coisa: a disposição de testar, a capacidade de avaliar resultado com critério e o hábito de reaprender. Para o RH, isso vem com um bônus estratégico. É difícil conduzir a transformação digital de uma empresa sem entender, na prática, a tecnologia que está no centro dela.
A VR está acompanhando o Summit Mulheres nas Profissões de perto. Nos próximos dias, você encontra aqui no blog os destaques das arenas e das conversas que mais interessam a quem cuida de pessoas.
