O painel “Marca pessoal: a liderança que as pessoas lembram” foi um dos destaques do segundo dia do Summit Mulheres nas Profissões, na Arena Rosa. A mesa reuniu Rafa Brites (comunicadora e autora de “Síndrome da impostora”), Monique dos Anjos (jornalista e consultora de diversidade, equidade e inclusão) e Rosa Bernhoeft (fundadora da Alba Consultoria, pioneira do mentoring no Brasil), com mediação de Regina Nogueira.
A conversa saiu rápido do terreno de dicas de rede social. Marca pessoal, na leitura do painel, não é o que você diz sobre você. É o que fica de você quando você sai da sala. Confira os principais insights!
O que marca, marca
A palavra foi levada ao pé da letra: marca é o que entra em contato com o que a pessoa sente. Marca pode ser boa ou ruim, e as marcas emocionais que alguém deixa nos outros pesam mais na construção de quem se é do que qualquer coisa que caiba num currículo.
Isso desloca a discussão do controle de imagem para o efeito. A pergunta deixa de ser “como eu quero ser vista” e passa a ser “o que sobra de mim depois da conversa”.
A mediação devolveu isso à plateia em forma de provocação: se você fosse uma marca, que marca você seria? A pergunta é mais difícil do que parece, porque quase ninguém é treinado para se autoperceber. A pessoa se comporta, colhe uma reação e não entende de onde ela veio.
Imagem, linguagem e encantamento
Monique dos Anjos organizou a construção de marca pessoal em três pilares, e respondeu de saída que no caso dela isso foi intencional.
Linguagem, porque importa como a mensagem é formulada e como ela chega. O critério que ela propôs é direto: o que você fala melhora alguma coisa ou apenas aponta problemas que todo mundo já conhece?
Imagem, no sentido de escolha consciente e não de adequação a um padrão. Ela descreveu sentir-se mais feminina sem nenhum cabelo, o que carrega uma decisão sobre não precisar de acessório externo para sustentar a própria ideia de beleza.
Encantamento, que é a parte que não se terceiriza. Sem conexão com a personalidade, o desejo e a pulsão de quem está ali, os outros dois pilares não funcionam. A formulação dela: “não pelo convencimento, sim pelo encantamento”.
Ela abriu a fala com uma audiodescrição de si mesma, e explicou o duplo motivo: acessibilidade, para transformar imagem em informação, e posicionamento político, porque autodeclaração exige conforto de quem declara.
Sobre adaptação a contextos diferentes, especialmente na transição que fez do meio acadêmico para o corporativo, a imagem que usou foi a da água: muda de estado, muda até a forma como é vista, e continua sendo a mesma coisa. Ajustar linguagem ao ambiente não é abrir mão de essência.
Mostrar a inconsistência é parte da marca
Rafa Brites entrou por outro caminho: o da imperfeição deliberada.
O argumento é que quem sobe num palco costuma ser lido como referência de perfeição, e que espelho em algo inexistente não serve para nada. Por isso ela fala tanto das conquistas quanto das fragilidades e das próprias inconsistências, incluindo mudanças de rota que contrariam o que ela mesma anunciou meses antes.
A ideia de que erro compromete autoridade apareceu invertida: “o dia que eu parar de errar, a IA vai me substituir”.
Não é uma defesa de descuido. É a constatação de que consistência de valores e consistência de comportamento são coisas diferentes, e que a primeira é o que sustenta uma marca ao longo do tempo.
O que impede as mulheres de ocupar espaço
Provocada sobre o que trava a presença feminina nos espaços de decisão, Rafa dividiu a resposta em duas esferas.
A esfera social é a estrutura, com tudo o que ela carrega de machismo, racismo e capacitismo, e muda por política pública e por movimento organizado. A esfera individual é o que dá para fazer enquanto isso.
Nessa segunda camada, o obstáculo apontado foi o medo do julgamento, resumido numa frase que ela usa como bússola: “todo julgamento é uma confissão”. O efeito prático desse medo é a mimetização, a tentativa de imitar quem parece dar certo. No caminho, perde-se sotaque, origem, referência de casa, tudo aquilo que não tem equivalente em outra pessoa.
A síndrome da impostora, tema do livro dela, entra como o nome dessa engrenagem: a sensação de nunca estar pronta. O fenômeno foi descrito em 1978 pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes, que identificaram, em mulheres de perfis muito distintos, a percepção comum de não merecer o lugar que ocupavam.
E aí veio a virada mais dura da fala: procrastinação como forma de proteção, porque quem não faz não é julgado, e também como forma de egoísmo, porque enquanto o trabalho não sai existe alguém que precisava dele.
Os ativos que ninguém pode tirar de você
Rosa Bernhoeft, aos 86 anos e ainda à frente da consultoria que fundou, respondeu sobre consistência com uma pergunta de inventário: quais são os ativos que pertencem a você e sobre os quais ninguém tem poder de interferir?
Ela listou três, e um quarto que é decisão.
O corpo, onde a vida está contida e onde a presença acontece. Cada gesto expressa algo antes de qualquer palavra.
O tempo, o único não renovável. Não há banco que empreste, não há crédito que reponha. A pergunta associada é em que tempo a pessoa está vivendo: no passado, num futuro ansiado, ou no presente.
O saber, entendido como a capacidade de perceber uma necessidade e de se habilitar para responder a ela. Quem aprendeu a operar com recurso escasso, a descobrir possibilidade e a construir aliança carrega um conhecimento que não vem de diploma.
O quarto item é a disposição, emocional e racional, de responder a duas perguntas que ela devolveu à plateia: o que você faz por você hoje, e isso é justo com você?
Sobre sucessão, tema em que atua, o recorte foi mais amplo do que o corporativo: sucessão é o que acontece quando outra geração se coloca à frente da sua, o que ela viveu como mãe, avó e bisavó. E sobre continuar trabalhando na idade em que se espera que ela pare, a definição que ela deu de si mesma foi “uma desobediência ambulante”. Fechou um projeto de três anos com um cliente e explicou o raciocínio sem cerimônia: entrega porque já contratou aquele tempo.
A dupla jornada não fica na portaria da empresa
Monique trouxe o dado que mais incomodou a plateia, e ele não é de pesquisa: é da pergunta que se faz em casa.
Homens, ao chegarem do trabalho, descrevem tirar o sapato, ligar a televisão, comer algo. Mulheres, à mesma pergunta, respondem com uma segunda lista de tarefas.
A partir daí ela propôs um teste de equidade doméstica bem mais exigente que o discurso: o parceiro sabe o nome da professora preferida da criança, sabe se a roupa de baixo já ficou pequena, sabe onde está a carteira de vacinação e qual dose está pendente? Quando a resposta é sim, existe divisão real.
O ponto não é anedótico. Empresa que pede para separar vida pessoal e vida profissional está pedindo que uma parte da equipe esconda uma jornada que a outra não cumpre. E é essa jornada escondida que alimenta a sensação de não dar conta.
Ela fechou com uma inversão sobre silêncio: quando alguém acha que o silêncio traz paz, essa paz não é para quem se calou. E emendou dois convites práticos. Um, procurar quem inspirou e dizer isso, porque reconhecimento entre mulheres desmonta a narrativa de rivalidade, que serve a quem não é elas. Dois, olhar para referências próximas, matriarcas, mães, tias, irmãs e amigas, em vez de buscar espelho apenas em quem está longe.
A VR acompanhou o Summit Mulheres nas Profissões de perto e reúne aqui no blog os destaques das arenas
