No segundo dia do Summit Mulheres nas Profissões, o painel “O agro também é uma carreira para elas” reuniu Fabiana Alves, Graciela Mognol, Amy Chan, Ana Repezza e Vanessa Pereira, com mediação de Teresa Vendramini (socióloga e pecuarista, primeira mulher a presidir a Sociedade Rural Brasileira), na Arena Marinho.
O tema foram as competências, os desafios e as oportunidades para quem quer construir trajetória de liderança nas indústrias que sustentam a produtividade do agronegócio brasileiro. Ou seja, o recorte não é a propriedade rural: é a empresa. E é justamente aí que a carreira feminina no agro tem um padrão bem definido: ela entra, sobe até um ponto e trava. Confira os principais insights!
O funil aparece no meio do caminho
O retrato mais útil vem das próprias empresas do setor. A oitava edição do ranking das melhores empresas para trabalhar no agronegócio, do Great Place To Work, mostrou em 2026 que 29% dos cargos de média liderança nas empresas premiadas são ocupados por mulheres. Nas demais posições de liderança, a participação avançou dois pontos percentuais e chegou a 26%, voltando ao patamar de 2024.
No topo, o movimento foi outro: a participação feminina na alta liderança caiu. Ao mesmo tempo, houve um crescimento de sete pontos percentuais em cargos de CEO.
Esses três números juntos contam a história de forma bem precisa. Existe entrada. Existe promoção até a média liderança. Há casos isolados chegando ao comando. E existe um estreitamento na camada intermediária entre gerência e diretoria, que é onde a maioria para.
Vale registrar que esse recorte é de empresas premiadas por qualidade de ambiente de trabalho. São, em princípio, as mais bem estruturadas do setor. O retrato geral tende a ser mais desfavorável.
O número muda muito de cadeia para cadeia
Tratar “o agro” como um bloco esconde diferenças grandes. Um estudo publicado em 2026 pela Fundação IDH, que analisou seis cadeias produtivas brasileiras, mostra o tamanho da variação.
Na pecuária, a participação feminina é a mais alta entre as cadeias analisadas. Na cana-de-açúcar, a mais baixa: mulheres são 8,8% da força de trabalho e ocupam 5,4% dos cargos de liderança.
O mesmo estudo traz o dado que mais explica por que essa conversa é de carreira e não de representatividade abstrata: apenas 17,4% das mulheres do setor recebem mais de três salários mínimos, contra 29,8% dos homens.
A conclusão prática para quem está escolhendo caminho é que a cadeia importa. Setores com maior presença feminina em posição de decisão oferecem trajetória menos solitária e referência mais próxima.
As competências que aparecem nos relatos
Existe pesquisa acadêmica sobre exatamente o público que esse painel se propôs a orientar. Um estudo publicado em 2025 ouviu 27 mulheres formadas em ciências agrárias entre 2000 e 2024 sobre a entrada no mercado de trabalho do agronegócio.
As barreiras relatadas foram consistentes: dupla jornada, disparidade salarial, preconceito, falta de oportunidade e, com destaque, dificuldade de ter credibilidade reconhecida e de assumir posição de liderança.
E as recomendações que elas mesmas fizeram formam uma lista concreta:
- capacitação técnica, apontada como o ativo que sustenta a credibilidade quando ela não é dada de partida;
- persistência e resiliência, diante de ambientes em que a competência é testada mais de uma vez;
- rede de apoio entre mulheres, tratada como fator prático de carreira e não como afinidade;
- busca contínua de conhecimento, que aparece como marca comum das mulheres que avançaram no setor;
- separação entre vida pessoal e profissional, mencionada como estratégia de sustentação.
Chama atenção que a competência mais citada seja técnica. Em ambiente onde a autoridade não vem por presunção, o domínio do assunto costuma ser o que abre a primeira porta.
Onde estão as oportunidades
O painel tratou das indústrias que impulsionam a produtividade do agro, e é um universo maior do que parece de fora. Insumos e defensivos, sementes e genética, fertilizantes e nutrição vegetal, nutrição e sanidade animal, máquinas e implementos, irrigação, armazenagem e logística, crédito e seguro rural, tecnologia e dados, comercialização e exportação, sustentabilidade e área regulatória.
Cada uma dessas frentes abre posições em pesquisa e desenvolvimento, campo, comercial, marketing técnico, operações, regulatório e gestão. Muitas não exigem formação em agrárias.
Um detalhe que costuma passar batido: a área regulatória e de sustentabilidade cresceu bastante nos últimos anos, puxada por exigência de rastreabilidade e por acordos comerciais internacionais. É uma frente relativamente nova, o que significa menos estrutura consolidada de quem já está lá e mais espaço para quem chega.
O que trava não é a entrada
Juntando os dados, o diagnóstico fica claro. A entrada no setor melhorou. A média liderança recebe quase um terço de mulheres nas empresas mais bem avaliadas. O problema está na passagem seguinte, e ela não se resolve com programa de atração de talentos.
Se o gargalo está entre a gerência e a diretoria, o que decide é o que acontece nessa faixa: quem recebe projeto de maior visibilidade, como a avaliação de desempenho é conduzida, quem entra em plano de sucessão e quem tem acesso à mesa em que a decisão é tomada.
Para quem está construindo carreira, a leitura útil é escolher com atenção não só a empresa, mas a cadeia e a área. Para quem já lidera, a pergunta é mais direta: na sua estrutura, quantas mulheres estão no degrau imediatamente anterior à diretoria, e há quanto tempo estão lá? A VR acompanhou o Summit Mulheres nas Profissões de perto e reúne aqui no blog os destaques das arenas
