No segundo dia do Summit Mulheres nas Profissões, o painel “Onde nasce a inovação no agro” reuniu Débora Milori, Catharina Pires e Claudia Demétrio, com mediação de Vivian Nascimento, na Arena Marinho.
A conversa foi sobre as carreiras que transformam descoberta científica em solução para o campo, com mulheres que lideram pesquisa, desenvolvimento tecnológico, regulamentação e inovação em institutos, empresas e órgãos públicos.
E partiu de um ponto que contraria o senso comum: a inovação que chega à lavoura quase nunca nasce nela.
A inovação no agro tem quatro elos
Entre uma descoberta científica e uma prática adotada no campo existe um caminho longo, e cada etapa depende de um tipo diferente de trabalho.
Pesquisa. É onde a pergunta aparece. Nem sempre com aplicação evidente: muita tecnologia agrícola veio de área nenhuma relacionada ao agro, como física, química ou ciência de materiais.
Desenvolvimento tecnológico. Transformar um resultado de bancada em equipamento, insumo ou método que funcione fora de condição controlada, com custo que feche.
Regulamentação. O elo mais invisível e o que mais decide. Produto sem aprovação de órgão competente não chega ao produtor, não importa a qualidade da ciência atrás dele. Registro, avaliação de segurança e norma técnica são parte da inovação, não obstáculo a ela.
Adoção. A tecnologia só existe de fato quando alguém usa. Isso envolve transferência de tecnologia, demonstração em campo, assistência técnica e, no fim, convencimento de quem vai assumir o risco da safra.
Uma carreira pode se construir inteira em qualquer um desses quatro elos. A programação do painel colocou justamente isso em cena, ao juntar pesquisa, tecnologia, regulação e órgão público na mesma mesa.
Uma pergunta pode abrir uma área inteira
A trajetória de Débora Milori, pesquisadora da Embrapa Instrumentação, em São Carlos, mostra bem como esse processo começa, e quase nunca começa por um plano.
Ela chegou à unidade recém-doutora em Física, buscando um pós-doutorado, e saiu convencida de que não havia espaço ali para a especialidade dela. Antes de ir embora, ouviu de um pesquisador da casa uma pergunta: seria possível usar fotônica para analisar solos brasileiros?
Aquela pergunta virou o primeiro projeto dela na instituição. Vinte e cinco anos depois, a unidade sedia o primeiro Laboratório Nacional de Agrofotônica do país, aprovado em 2021 com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A linha de trabalho inclui métodos e equipamentos que usam laser para quantificar carbono, nutrientes e contaminantes no solo, além de sistemas portáteis para diagnóstico precoce de doenças em plantas, feito no próprio campo.
Duas coisas ficam dessa história. A primeira é o prazo: uma área de pesquisa aplicada leva décadas para se consolidar, e quem entra nela não vê resultado no trimestre seguinte. A segunda é a origem improvável: física aplicada ao solo não estava no mapa de ninguém quando esse trabalho começou.
Carreira no agro não pede diploma de agronomia
É a consequência prática do que está acima. As competências que produzem inovação no setor vêm de formações que raramente são associadas ao campo.
Física, química, ciência de materiais, engenharias, biotecnologia, ciência de dados, estatística, direito regulatório, ciências ambientais. Todas têm porta de entrada em institutos de pesquisa, empresas de tecnologia agrícola, cooperativas com área de P&D e órgãos públicos de regulação e fiscalização.
Para quem está escolhendo caminho, o ponto é menos sobre gostar de agro e mais sobre onde a própria especialidade encontra um problema que vale décadas de trabalho.
Onde estão as mulheres nessa cadeia
O dado mais citado sobre presença feminina no setor é o da produção: segundo o Censo Agropecuário 2017 do IBGE, mulheres dirigem 19% dos estabelecimentos agropecuários do país, contra 13% em 2006.
Do lado da ciência e da tecnologia, o retrato é mais fragmentado. Não existe um indicador tão consolidado sobre participação feminina em pesquisa e desenvolvimento no agro quanto existe sobre direção de propriedade, o que por si só diz algo sobre a atenção que essa parte da cadeia recebe.
O que existe são trajetórias como as que esse painel reuniu, distribuídas pelos quatro elos. E colocá-las no mesmo palco tem um efeito prático para quem está escolhendo caminho: mostra que existe carreira no agro muito antes da porteira. A VR acompanhou o Summit Mulheres nas Profissões de perto e reúne aqui no blog os destaques das arenas
