CONARH: o que muda nas empresas quando a inteligência humana também precisa evoluir

VR
18.08.2026
5 min de leitura
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O painel “IA + IH: o que realmente muda nas organizações depois da adoção da IA” reuniu Ligia Zotini, fundadora da Voicers, e Nancy Abe, CIO e conselheira da Nomar Consultoria, com moderação de Issa La Croix, do Comitê CONARH. A conversa partiu de uma pergunta simples e foi ficando cada vez mais desconfortável: depois que a IA realmente entrou na rotina das empresas, o que mudou que ninguém tinha previsto?

A produtividade subiu, mas para quem?

Issa observou algo que muita gente sente mas poucos verbalizam: o ganho de produtividade com IA é muito mais visível dentro das empresas pequenas e nos times internos das grandes do que na experiência do cliente final. Bancos e marketplaces aceleraram processos por dentro, mas quem está do lado de fora, comprando ou usando o serviço, sente pouca diferença real.

Nancy trouxe o outro lado dessa moeda, o custo que a pressa não deixou visível a tempo: o valor da nuvem subiu com a adoção em massa de IA, e a segurança da informação virou uma corrida contra o tempo, já que muitos trabalhadores passaram a usar ferramentas de IA por conta própria antes de qualquer política da empresa existir. E há um efeito colateral mais sutil, segundo Issa: antes, um trabalho malfeito parecia malfeito. Um e-mail ruim, uma apresentação capenga, davam para notar de cara. Com a IA, ficou mais difícil separar o que tem profundidade real do que só parece bom.

Cargos que ainda não existem oficialmente

Um ponto levantado no painel é que boa parte das empresas ainda não definiu quem é responsável pela governança e pela auditoria dos agentes de IA que já estão em uso. A expectativa é que isso gere funções novas, inclusive dentro das próprias áreas de negócio, e não só na tecnologia, já que quem deveria monitorar o uso de um agente de IA em vendas ou em atendimento é, em tese, a própria área de vendas ou atendimento.

O alerta mais duro do painel

A crítica mais direta foi sobre o que está sendo feito com o tempo que a IA libera. Segundo o painel, boa parte das empresas está direcionando esse tempo quase só para produtividade, sem repensar quem vai formar a próxima geração de profissionais. O raciocínio é simples: cargos de entrada, os mais fáceis de automatizar hoje, eram também a porta pela qual jovens profissionais aprendiam observando quem já tinha mais experiência ao lado. Sem essa porta, o gargalo de talento maduro aparece em poucos anos, e quem sente isso primeiro é justamente o RH.

Além da inteligência cognitiva

Ligia trouxe a virada mais conceitual do painel. Segundo ela, o pedido que mais recebe de empresas mudou nos últimos dois anos: de “fale sobre cenários de futuro” para “fale sobre novas formas de performance e liderança”, porque os modelos antigos de alta performance pararam de funcionar. A tese que ela defende é que a inteligência cognitiva, a parte racional e objetiva do trabalho, já é território onde a máquina compete em vantagem. A diferença humana precisa vir de outro lugar: inteligência emocional, relacional, sensorial e intuitiva.

Ela relacionou essa busca a fenômenos como a resistência de gerações mais jovens a cargos de liderança tradicionais e a experiências como a semana de quatro dias, em que parte dos participantes preferiu manter o tempo livre a receber um aumento salarial expressivo. Para Ligia, isso mostra uma demanda real por espaço para outras dimensões da vida, não apenas discurso.

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O que muda no papel de quem lidera

Do painel, ficaram três mudanças práticas para quem lidera equipes:

  • Comando e controle perdem espaço para a criação de condições para que cada trabalhador use melhor seu próprio potencial.
  • Observar o estado emocional do time se torna parte do trabalho de liderança, não um extra. Um exemplo citado foi o período remoto durante a pandemia, quando líderes foram orientados a prestar atenção ao que aparecia nas câmeras durante reuniões, além do conteúdo da conversa.
  • A IA ainda não tem sensibilidade emocional, o que mantém esse território como diferencial exclusivamente humano.

Onde a inteligência humana ficou mais valiosa, não menos

O painel também tentou romper com a ideia de que sobra pouco espaço humano diante da IA. Alguns pontos citados: validar e corrigir erros da IA, incluindo identificar quando ela produz uma resposta incorreta com aparência de certeza; criar algo do zero, quando não existe ainda referência para a IA aprender; e uma frente ainda pouco explorada, cuidar de como os próprios modelos de IA são treinados e ajustados dentro da empresa.

Fechamento: convidadas a imaginar o painel em 2030

Ao serem convidadas a projetar o que estariam discutindo nesse mesmo palco daqui a alguns anos, as respostas foram na direção de ampliar a pergunta original. Uma das falas apontou a necessidade de as empresas estarem prontas para lidar com as múltiplas identidades de cada trabalhador, não só a profissional. Nancy foi além: para ela, a pergunta que vai importar não é apenas como performar melhor, mas como governar uma empresa pensando também na sociedade e no planeta, e não só no resultado individual de cada negócio.

Esse foi mais um recorte da cobertura do CONARH 2026 no blog da VR, com destaques dos principais painéis do evento.

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